quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Partir








Por vezes apetece-me partir. Apenas partir. Levando comigo o eu que transporto e que tantas vezes me pesa. Nos ombros. Na consciência.
Apetece-me partir sem me importar o regressar. Partir comigo, ou deixando-me para trás, deixando-me sentado numa beira de estrada indefinida e alcatroada pela vontade de ir.
Apetece-me apenas levar comigo os ecos que constantemente ressoam dentro de mim. Amálgama de pensamentos e de tantas palavras que desaguam num qualquer compartimento do meu ser e que ficam à espera que lhes abra a torneira do meu querer.
Para que finalmente possam gotejar na ampulheta da criatividade que tantas vezes torturo por dela nada querer.
Por vezes apetece-me partir. Transformar-me naquela silhueta que se desfaz no horizonte para alguém que acena nas minhas costas. Aquela silhueta que nunca fui para os outros. Mas que fui tantas vezes quantas as que deixei para trás as lágrimas que desenhei sem querer, as dores que moldei na paixão e que abandonei na esquina da eterna estrada sem fim que percorro.
Por vezes apetece-me partir. E voltar duma ausência por ti consentida.

Porque se algum dia partir será por ti. E se algum dia voltar, por ti será.

Relógio de Outono








Deixo cair os minutos como folhas de um Outono que demora a passar...

As minhas ideias parecem ter secado, amontoando-se num qualquer gaveto da imaginação que preguiça e se espreguiça no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio imaginário.
Será este o Outono da minha criatividade, ressequindo e encarquilhando as folhas de papel dependuradas nos galhos da minha existência?
Quantos mais minutos se irão acrescentar ao meu desertificado querer? Num misto de tantas vontades que se entrechocam e sangram palavras que convulsam dentro de mim.
Quantas mais folhas vou precisar de avermelhar com a loucura que deambula no meu olhar perdido e que traça perfis alaranjados nas tardes outonais que morrem para lá do horizonte? E que coloram o firmamento com promessas de mais um dia em que os minutos continuarão a cair a meus pés.
E eu a varrê-los para debaixo do tapete criativo para que, em qualquer momento do meu tempo, os possa resgatar e voltar a sentir que os ponteiros deste relógio de Outono tique-tacam no sentido que um dia foi determinado. Mas que posso não querer que seja o meu.

sábado, 16 de agosto de 2008

vontade








Na ímpia certeza da loucura
escorrem por entre as bocas
as letras que nunca te escrevi.

Deslizam as gotas de suor nos corpos
amassados pelas bocas
da luxúria consentida.

Percorro as ladeiras do teu corpo
com a minha língua sôfrega que lambe
as feridas da batalha dos amantes.

Devoram os olhos as intenções amalgamadas
pelos desejos percorridos,
consentidos, viciados na sedução.

Vivo apenas o que não vivo,
assassinado nas entranhas do teu desejo
feito escravo em tuas mãos peregrinas.

Mãos que percorrem os sentidos orgásticos
desse amanhã que já hoje vivemos
nesse futuro morto pelo presente.

Tenho vontade de ti
do tactear da tua boca que me percorre
e me desfaz em mil átomos.

Tenho vontade de ti
dos desenhos que as tuas garras
riscam em mim.

Tenho vontade de ti
e desse mundo inventado só para nós
nos desfiladeiros da insensatez.

Tenho vontade de cada letra
que grita por entre silêncios
nas entrelinhas dos murmúrios.

serei eu?








ANJO CAÍDO


Eu sou palavra, poesia, sonho e ilusão,
sou palco, sou teatro,
sempre em mim uma canção.
Eu sou mistério, pássaro de fogo,
andorinha, primavera,
Outono, chuva e sol,
nuvem triste, céu azul.
Sou avião, descobridor,
sou amor, sou paixão,
irreverência, imperfeição,
sentir e tanta dor.
Eu sou segredo, inconfessado,
mar salgado, beijo eterno,
sou rosa púrpura,
sentimento, esperança e desalento.
Sou sorriso, gargalhada,
lágrima que cai,
cristal partido,
sou amigo, impulsivo,
luz de vela, sombra lunar.
Eu sou teimoso,
cavalo alado,
lutador e conquistador.
Sou estrela, cadente, criador,
criatura, caminhante da aventura.
Eu sou fraco, corajoso,
herói e vagabundo,
das estrelas e dos mares
que brilham em todo o mundo.
Sou fogueira, amor carnal,
absinto e Carnaval,
sou loucura, irresistível,
folha de papel, e de jornal.
Eu sou alegria, e vida,
sou amante,
simples, complexo,
paz, inquietude, flor de sal,
brisa fresca, arrepio, alfabeto.
Sou natureza, rio que passa,
sentimento de beleza,
don Quixote, don Juan,
Casanova, ex-galã.
Sou montanha, escarpa e tempestade,
vale, sossego,
pensamento de fazer medo.
Sou abraço, abraçado,
sensualidade, permissivo,
apenas homem.
Ou anjo caído.


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

"você vai precisar de uma mulher a cada livro"







pergunto-me até que ponto esta afirmação, ou diagnóstico, de Scott Fitzgerald para com Hemingway, quando se conheceram em Paris, fará algum sentido, ou terá alguma consistência...será que é sempre a outra mulher que o poeta procura? aquela mulher que, como gota de água em solo desértico, é necessária à sobrevivência do seu míster poético? será que é sempre a próxima mulher que fará com que o poeta se transcenda e ultrapasse a barreira da imaginação e da criatividade? será que a poesia do poeta se desenha em peles macias e ambarinas, escorrendo por entre as pregas de um corpo amado? porque será o poeta um insatisfeito? porque todo o humano é insatisfeito? porque será o poeta um permanente descobridor de sensibilidades e emoções que armazena em si próprio para mais tarde crucificar no papel? porque será o homem ou a mulher esse objecto de intenso desejo posteriormente dissecado em rimas, prosas ou delírios literários de toda a ordem? porque o humano é um ser que precisa sempre de algo mais. de mais prazer, de mais felicidade, de mais amor, de mais risco, de mais aventura, de mais poder, de mais sol, de mais lua, de mais beijos, de mais abraços, de mais água, de mais sorrisos, de mais palavras. porque será o poeta o coitado sobre quem recai o castigo? o dedo acusatório? a incompreensão dos restantes humanos? pobre poeta e escritor. feliz do poeta e escritor.

vontade, preguiça, indolência, agosto?








ando com aquela vontade de para nada ter vontade. ando com aquela vontade de deixar morrer o tempo na ânsia de ressuscitá-lo e esperar que me acorde deste torpor. sinto-me amorfo, imaterial, massa humana que se arrasta no arrastar dos ponteiros. olho os pombos que defecam onde poisam, debicando beatas de cigarro, folhas mortas, que andam para trás e para a frente. sem rumo. vida insípida, defraudada de futuro. limitada entre duas asas. mas o pombo voa, e com ele voa a liberdade. eu não voo, mas sou livre.

ando com aquela vontade de ter muita vontade que algo aconteça. expectante. delirante. viciante. ando com aquela vontade de ser recuperado por um anjo de seios perfeitos, de mãos ousadas, de olhar perturbador, de corpo moldavel aos instintos do meu prazer. olho o mendigo que estende a mão à sensibilidade da senhora altiva que por ele passa tornando-o ainda mais mendigo pela sua atitude de indiferença. merda de mulher, penso para comigo. merda de sociedade, deixo escapar entre dentes.

ando com aquela vontade de preguiçar. de deixar que sejam as palavras a puxar por mim, a arrastar-me para o seu delírio de ideias e composições poéticas. ando com aquela vontade de explodir em mil sons, em mil tons, em mil orgasmos e saber que, afinal, ainda estou vivo. olho o mês de agosto que transforma a cidade num pardieiro quase fantasma, cidade que permite evacuações auto consentidas para paragens mais ou menos longínquas. tenho a cidade para mim. e nela o anjo que me virá resgatar com o seu sorriso, a sua boca, o seu olhar colorido por desejos (in)confessáveis. pelo seu corpo feito poema e que me fará de novo viver. e no viver reinventar a escrita.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Estradas Repletas








Este blog em particular, e a blogosfera em geral, ficam mais bonitos e enriquecidos a partir de hoje com a entrada em órbita do novo blog de Natália Bonito.

Consultem http://www.estradasrepletas.blogspot.com/ e sorriam com o perfume poético que dele emana.