
Por vezes apetece-me partir. Apenas partir. Levando comigo o eu que transporto e que tantas vezes me pesa. Nos ombros. Na consciência. Apetece-me partir sem me importar o regressar. Partir comigo, ou deixando-me para trás, deixando-me sentado numa beira de estrada indefinida e alcatroada pela vontade de ir. Apetece-me apenas levar comigo os ecos que constantemente ressoam dentro de mim. Amálgama de pensamentos e de tantas palavras que desaguam num qualquer compartimento do meu ser e que ficam à espera que lhes abra a torneira do meu querer. Para que finalmente possam gotejar na ampulheta da criatividade que tantas vezes torturo por dela nada querer. Por vezes apetece-me partir. Transformar-me naquela silhueta que se desfaz no horizonte para alguém que acena nas minhas costas. Aquela silhueta que nunca fui para os outros. Mas que fui tantas vezes quantas as que deixei para trás as lágrimas que desenhei sem querer, as dores que moldei na paixão e que abandonei na esquina da eterna estrada sem fim que percorro. Por vezes apetece-me partir. E voltar duma ausência por ti consentida. Porque se algum dia partir será por ti. E se algum dia voltar, por ti será. |





